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FANFIC - Arco-Íris de Luas - Autora: Ceres

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1 FANFIC - Arco-Íris de Luas - Autora: Ceres em Qui Maio 30, 2013 9:09 pm


 Capítulo I

   Acordei com um sobressalto. Não sabia dizer o que me acordou, se um barulho qualquer ou algum pesadelo, mas não importava. Um rápido vislumbre através da janela foi o suficiente para me dar conta que a Lua Verde finalmente despontava no céu. Era dia de festival. O dia que eu mais ansiava no mês das luas primas.
   Pulei da cama correndo, tinha pouco tempo para me arrumar antes que o primeiro sol nascesse.  
   Rapidamente lavei meu rosto com a água da bacia ao lado de minha cama e passei a procurar por vestimentas de boa aparência, não que eu tivesse muitas opções, mas ainda assim queria estar apresentável. O dia do Festival da Lua Verde era umas das raras ocasiões que eu podia ver Lorde Kadrahan de perto.
   Enquanto remexia no meu baú de roupas, parei por um instante relembrando a primeira vez que o vi. Para mim era como se fosse ontem, embora isso tenha sido há muitos ciclos de luas atrás...
   Foi quando a velha Snotra permitiu que eu saísse do povoado pela primeira vez também. Ela me levou a Cidade da Corte na época do Festival da Lua Verde. Eu ainda estava muito assustada com tudo ao meu redor e não conseguia admirar a beleza do festival. Então eu o vi. E fiquei instantaneamente maravilhada com a beleza dele. Um lindo cavaleiro usando uma armadura prateada e túnica preta com detalhes azuis. Tinha olhos de um verde escuro profundo destacados por sua pele alva e por seus cabelos negros como uma rara noite sem lua. Ele estava a frente de um cortejo e cavalgava um cavalo também negro, mas a crina do belo animal era dourada como fios de ouro. Em nenhum momento nossos olhares se cruzaram, mas fui fascinada por ele de forma incompreensível e irremediável.
   Snotra ao perceber que algo, ou melhor, alguém, finalmente me despertava do mundo isolado em que minha mente vivia, falou alguma coisa, mas naquela época eu ainda era incapaz de compreender suas palavras. Com o passar do tempo, as palavras das pessoas começaram a fazer sentido para mim, mas nunca fui capaz de lembrar o que a velha Snotra havia me dito e tão pouco ela me respondia quando eu perguntava a respeito.
   Muito tempo depois descobri que aquele era Lorde Kadrahan, Capitão da Guarda Real e General do Exército do Rei em tempos de guerra. Ele era conhecido em todo o reino por sua coragem e lealdade ao Rei. Seus inimigos o temiam por sua ferocidade, destemor e por ser implacável nos campos de batalha. Entretanto, também era admirado pelo povo por sua generosidade e seu enorme senso de justiça.
   Lorde Kadrahan desde sempre foi o melhor amigo de Nars, o Príncipe Herdeiro e o Rei Tratus o considerava como seu próprio filho, tanto que concedeu a ele com grande alegria a mão de sua filha, a Princesa Myris. O noivado foi comemorado por todo o reino e o casamento não demoraria a acontecer.
   Lembrar da Princesa Myris me fez voltar de minhas lembranças. Eu podia sonhar livremente com Lorde Kadrahan, mas sabia que na realidade ele pertencia a ela. E eu nem podia me dar luxo de não gostar dela. A família Real é muito querida por todo o reino, todos conhecidos por sua bondade e por buscarem sempre fazer o melhor por seu povo, mas sem dúvidas nenhuma, a Princesa Myris é a mais amada entre os plebeus. Ela vive visitando os povoados mais distantes de todo o reino. Sempre trazendo alimentos, roupas e remédios, mas quando necessário, ela ajuda com as próprias mãos, cozinhando, costurando e cuidando dos doentes. As crianças a idolatram também. E mesmo que ela tivesse um caráter horrível, ainda assim eu nunca chegaria aos pés da Princesa, pois com seu cabelo loiro platinado e belos olhos azuis, é dona de uma beleza pura e inigualável.
   Suspirei e voltei a minha atenção para o meu baú e só então me dei conta que nenhuma das minhas melhores vestimentas estava nele. Por todas as luas, onde elas foram parar?
   - O que ainda está fazendo parada aí, Aédris? –berrou Snotra abrindo a porta com um estrondo. - Por que ainda não está pronta?
   Levei um susto tão grande, que deixei a tampa do baú fechar sobre meus dedos da mão direita.
   - Ficou maluca, velha? Quer me matar do coração? –gritei de volta enquanto sacudia os dedos em uma tentativa inútil de aliviar a dor. – Devo ter quebrado os dedos por sua culpa!
   - Se não quebrou eles em uma das muitas vezes que bateu na cara de alguém, não vai ser uma inocente tampa de madeira que irá quebrá-los!
   Ignorando o comentário, perguntei:
   - Velha, onde estão minhas vestes?
   - Em sua trouxa que já está no cavalo! A única coisa lá que está faltando é você!
   - O quê?
   - Nem pense que vou permitir que você não volte ao Centro de Aprendizagem!
   Demorou uns segundos, mas finalmente me lembrei. O primeiro dia da Lua Verde também marcava a data de retorno às aulas.
   - Zarmey! Zarmey! Zarmey!
   - E já falei para parar de dizer palavrões! Você pode não se comportar e nem se vestir como uma dama, mas esse tipo de palavra é intolerável até mesmo para garotos!
   - Khrratz!!!! –continuei xingando enquanto vestia minha calça de couro marrom mais velha, minha camisa que há muito não era mais branca e minhas botas gastas.
   - Ainda vou lavar essa sua boca suja com baba de Voluns!
   - Eca!!! –agora ela tinha apelado.
   - O primeiro sol já vai nascer! Com sorte você chegará ao Centro de Aprendizado antes que o segundo nasça!  
   Contrariada, deixei a velha Snotra falando sozinha e fui em direção a porta de casa decidida a partir sem me despedir.
   Meu cavalo Rius estava amarrado à varanda, já estava selado e minha trouxa nele. Dentro dela havia pão de sadewa, meu preferido, água e suco de lezus, minha fruta preferida também.
   Um nó se formou em minha garganta. A velha Snotra podia estar me obrigando a estudar contra a minha vontade, mas ela se importava comigo. E eu ficaria muitas luas sem vê-la até o fim de mais um período de estudos do Centro de Aprendizagem.
   Dei meia volta e lá estava ela, bem atrás de mim com a cara amarrada. Fiquei apenas olhando para ela por um tempo. Ela era mais baixa do que eu, era magra, porém seu corpo era esguio e forte apesar da idade avançada. A única coisa que denunciava seus mais de 700 anos de ciclos de luas, era seus longos cabelos brancos e algumas rugas em seu rosto, poucas na verdade se considerando sua idade. Entretanto o que eu mais gostava naquele rosto, era seus olhos azuis que expressavam uma bondade sem fim, mesmo quando ela tentava parecer dura e severa.
   Sem pensar duas vezes, a abracei forte e ela retribuiu o abraço com carinho. Alguns minutos depois subi em meu cavalo e já me preparava para partir, quando ela disse:
   - Prometa que irá se comportar! Por muito pouco você não foi expulsa do Centro de Aprendizagem no período passado!
   - Você sabe que não faço promessas que não posso cumprir, velha! –gritei já incitando Rius a correr.
   E assim segui rumo a Cidade da Corte.

***




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2 Capítulo II em Dom Jun 09, 2013 8:51 pm

Capítulo II


A distancia do meu povoado até a Cidade da Corte era longa, mas Rius era um cavalo incrivelmente veloz e eu não demoraria muito para chegar até lá.
Enquanto sentia o vento batendo forte em meu rosto, meus pensamentos voltaram ao retorno às aulas no Centro de Aprendizagem. Odiava aquele lugar. Era onde apenas os nobres e filhos de ricos comerciantes estudavam. E, bem, agora eu também, contra a minha vontade, devo enfatizar. Tudo graças a teimosia sem fim da velha Snotra. Se tivéssemos o mesmo sangue, diria que puxei isso dela.
Snotra é uma curandeira conhecida em todo o reino por suas curas milagrosas. E certa noite, o Duque de Vanshey apareceu a nossa porta trazendo seu filho mais velho em estado moribundo e implorou para que Snotra o salvasse, pois os médicos da realeza já tinham o desenganado. Snotra aceitou cuidar do jovem duque, mas pediu ao Duque que deixasse seu filho em nossa casa para que ela pudesse curá-lo. Eu já tinha visto muitos doentes em estado grave desde que passei a viver com Snotra e honestamente achei que o rapaz não tinha mais chances quando o vi. Entretanto, mais uma vez Snotra fez um milagre acontecer e depois de alguns dias o tratando com suas plantas medicinais, o jovem duque se recuperou completamente.
O Duque de Vanshey ficou tão agradecido, que ofereceu dar a Snotra qualquer coisa que ela quisesse para demonstrar sua gratidão. Eu já tinha uma lista enorme em minha cabeça, porque embora a fama de curandeira milagrosa percorresse todo o reino, aqueles que geralmente a procuravam, eram pessoas humildes que não podiam pagar pelos serviços de um médico registrado, ou seja, o pagamento que recebia era sempre na forma de porcos e galinhas.
Estava a ponto de sugerir uma casa de verdade, uma onde não houvesse goteiras por toda parte quando chovesse e nem vento cortante entrando pelas frestas das madeiras durante o rigoroso inverno, como acontecia em nossa pequena choupana. Umas vacas e uma carroça com dois cavalos também não seria mal. E quem sabe uma reforma no nosso pequeno estábulo...
Entretanto, para minha total surpresa, ela disse ao Duque que a única coisa que realmente queria, era que me fosse permitido estudar no Centro de Aprendizagem da Cidade da Corte. Que a melhor maneira de o Duque demonstrar seu agradecimento a ela seria pagando por meus estudos em um lugar onde a melhor educação era oferecida.
O Duque de Vanshey, após a surpresa inicial, disse que tudo seria providenciado o mais rápido possível. Que ele faria qualquer coisa por alguém que salvou a preciosa vida de seu filho.
Depois que o Duque foi embora levando seu filho e o meu choque passou, esbravejei com a velha. Estudar na realeza não encheria a nossa barriga e nem daria um teto decente para morarmos. E eu já tinha decidido que me tornaria uma curandeira também, ou seja, a melhor professora que poderia ter era ela e não algum médico burro da Corte. Além do mais, se ela queria tanto que eu estudasse, em cada povoado havia uma Unidade de Aprendizado. Nada que pudesse ser comparado ao ensino do Centro de Aprendizagem da Cidade da Corte, mas era o suficiente para alguém que queria ser uma curandeira. Está bem, devo admitir que eu já tinha estudado um tempo na Unidade de Aprendizado de nosso povoado e saí de lá sem ainda saber ler e escrever, mas eu podia voltar e tentar mais uma vez. Não precisava e muito menos queria ir estudar na Corte. Se meus colegas do povoado que eram tão pobres quanto eu, faziam piadas o tempo todo por alguém da minha idade ser incapaz de aprender a ler e escrever, não queria nem imaginar como seria na presença dos esnobes filhos da realeza. Preferia morrer a me sentir humilhada na frente deles.
Aparentemente meu desejo de morte não era tão grande quanto eu acreditava. Depois de ser esfolada algumas vezes com uma varinha de plantas secas, acabei “aceitando” estudar na Corte.
Como já tinha antecipado, fui imediatamente desprezada por todos os meus colegas pelo simples fato de ser pobre. O fato de ser provavelmente a única garota em todo o reino a usar calças e não vestidos como todas as supostas donzelas usavam, com certeza chamava a atenção de todos, mas não o suficiente para reconhecerem a minha existência. E sinceramente eu preferia não ser notada, isso tornaria a minha estada naquele lugar um pouco mais tolerável.
Entretanto, havia algumas vantagens em estudar entre os ricos. Como nenhuma nobre donzela queria dividir um quarto comigo, eu tinha um quarto só meu. E pela primeira vez eu tinha um banheiro só para mim. Um banheiro que tinha água encanada e uma enorme banheira. E o melhor, a comida era farta e sempre saborosa.
Infelizmente minha alegria durou pouco e logo eles me notaram da forma que eu menos desejava. Foi durante minha primeira aula de literatura clássica, quando perceberam que eu era incapaz de ler qualquer palavra. Desnecessário dizer que virei motivo de piadas por todo Centro de Aprendizagem. Os professores então decidiram que seria melhor eu estudar alfabetização com as crianças do primeiro período de aprendizagem. Mas como também não queriam desagradar ao Duque de Vanshey, permitiram que eu tivesse as demais aulas com os outros jovens de minha idade. As principais disciplinas, cálculos, ciências, história e literatura eu tinha juntamente com todos da minha classe. Alfabetização eu frequentava com as crianças de apenas 60 aninhos, onde eu era a mais velha com os meus 170 anos e também a pior aluna da turma. E para meu total desagrado, eu tinha que frequentar algumas aulas só para as garotas, que consistiam de aulas de bordado, costura, artesanato, música e pintura. Eu conseguia ser péssima em todas elas. Teria aprendido coisas muito mais úteis se pudesse frequentar as aulas dos garotos, como aulas de uso da espada e outra armas, como arco e flecha, estratégias de guerra, combate físico, etc. Nunca tinha segurado uma espada, pelo menos não que me lembrasse, mas tinha certeza que lidaria melhor com uma do que segurando uma agulha.
Enfim, minha vida se tornou um pesadelo depois que meus esnobes colegas descobriram minha incapacidade de aprender as letras. Por onde passava, eram piadas e mais piadas a respeito do meu problema. Que até crianças eram mais inteligentes do que eu.
Devo mencionar que o filho do Duque de Vanshey, sim, aquele ingrato cuja vida foi salva por Snotra, era o líder daqueles que faziam gozações sobre mim o tempo todo. Em minha opinião, Vanshey, como eu me referia ao ingrato que não seria Duque até o pai bater as botas, ao menos devia respeitar a gratidão que o pai sentia por Snotra, permanecendo em silêncio ao invés de parecer ser o principal interessado em me ver longe dali.
Então tomei uma decisão. Já que a velha Snotra não permitiria que eu deixasse o Centro de Aprendizagem, faria com que eles me expulsassem de lá. Com esse plano em mente, passei a fazer o que sabia de melhor. Arranjar brigas.
Sempre que alguém fazia piadas sobre mim, eu não pensava duas vezes antes de dar um soco no autor da piada. As garotas pararam de fazer piadas com medo de terem seus belos narizes quebrados por mim, mas ainda as ouvia cochicharem que eu era uma selvagem por usar meus punhos como os homens. Já os garotos passaram a me ver como uma espécie de desafio e tentavam me domar, nas palavras deles.
Não me considero tão linda como a Princesa Myris, mas sei que sou dona de uma beleza diferente que atrai o interesse dos garotos com intenções nenhum pouco decente. Meus cabelos vermelho-vinho são longos e com grandes cachos, o que é algo raramente visto, tanto pela cor quanto pelos cachos, já que todos no reino possuem cabelos incrivelmente lisos. Sem contar que os poucos ruivos existentes no reino tendem para um loiro avermelhado e não para um vermelho bordô, da cor de “sangue de defunto”, como já me provocaram diversas vezes no povoado. Porém, o que mais chama a atenção em mim, segundo Snotra, são meus olhos cinza, que de tão claros quase se misturam ao branco do olho e que mudam de cor para um cinza escuro como uma nuvem de tempestade, novamente nas palavras dela, quando estou com raiva. Os garotos mimados que se aproximavam de mim com intenções nada nobres, eram os que eu batia com mais gosto e fazia mais estragos.
Os professores não estavam nenhum pouco satisfeitos com o meu comportamento agressivo e respostas malcriadas dirigidas a eles. Estava a ponto de conseguir o meu objetivo de ser expulsa, quando aconteceu novamente. Tive uma de minhas visões. E salvei a vida do filho do Duque, de novo.
Um dos muitos fatos curiosos a meu respeito, que não são poucos, é que ocasionalmente tenho visões do futuro. Visões que fatidicamente acabam acontecendo de um jeito o de outro, mesmo que eu consiga interferir em alguns aspectos. O problema dessas visões é que quando elas acontecem, fico tão presa a elas, que não consigo distinguir a visão da realidade. Para mim é como se o que quer que esteja acontecendo na visão está de fato acontecendo no presente. Posso em um minuto estar sentada em uma sala de aula e no outro estar em uma estrada, e ainda assim, meu cérebro não consegue racionalizar para a impossibilidade da sequencia de eventos. E o pior, as emoções que ainda “sentirei” vem com força total para o meu presente eu.
Então compreensivelmente quando em um minuto eu estava tendo uma terrível discussão com Vanshey e no outro estava me jogando literalmente em cima dele o salvando de ser atropelado por uma carruagem “imaginária”, fui promovida de selvagem briguenta para selvagem briguenta maluca.
Entretanto, alguns dias depois, quando os garotos estavam na aula de arco e flecha e eu matando aula de bordado, uma carruagem desgovernada invadiu o campo de treinamento. Concentrado como estava, Vanshey e os outros não viram e nem esperavam por uma carruagem aparecer do nada. Sobrou para mim repetir o feito do outro dia me jogando em cima de Vanshey e mais uma vez e o salvar da morte iminente.
Após esse incidente, de selvagem briguenta maluca, passei a ser simplesmente chamada de bruxa. E o ingrato Vanshey foi o primeiro a gritar que eu era uma bruxa. É sério, se salvar a vida a dele não é o suficiente para ele saber o significado do sentimento de gratidão, já o considero um caso perdido.
Em meu povoado, minhas visões já tinham ajudado a evitar muitas tragédias e embora muitos me considerassem uma bruxa também, pelo menos eles se mostravam mais agradecidos.
Um fato importante sobre a sociedade em que vivo. Se uma mulher nasce com dons sobre naturais, ela é considerada uma bruxa, mas se um homem nasce com os mesmo dons ele é considerado um feiticeiro e visto com bons olhos. Khrratz de sociedade sexista, seja lá o que for que signifique essa palavra. De modo geral, bruxas são consideradas criaturas malignas, perversas e traiçoeiras.
Quem me dera eu fosse mesmo uma bruxa, pelo menos saberia fazer coisas legais como enfeitiçar meus inimigos e os obrigar a fazerem o que eu quisesse ou talvez transformar alguém em sapo. As verdadeiras bruxas são raras, quase nunca vistas em nosso reino, porém dizem que sempre causam caos por onde passam.
Para o meu azar, apesar de a minha imagem ter piorado consideravelmente, salvar mais uma vez vida de Vanshey, tornou impossível que me expulsassem do Centro de Aprendizagem. O Duque de Vanshey ficou sabendo do ocorrido e declarou solenemente que mesmo que os boatos fossem verdadeiros (boatos que o idiota de seu filho começou), eu certamente era uma boa alma pelo simples fato de usar meu “dom” para salvar vidas e que ele nunca iria permitir que me expulsassem de lá.
Agora, enquanto atravessava os portões da Cidade da Corte, estava seriamente considerando quebrar alguns ossos importantes de Vanshey, para convencer o Duque que me deixar perto de seu precioso filho podia ser na verdade um grande perigo. Foi quando notei que a cidade estava estranhamente agitada e todos pareciam assustados e preocupados. Fiz Rius andar lentamente ao guiá-lo para os estábulos do Centro de Aprendizagem. Alguma coisa estava definitivamente errada. Todos que passavam por mim estavam com medo e não era de mim.
Deixei Rius no lugar que é reservado a ele nos estábulos. Ele também tem um lugar só dele e bem espaçoso, já que meu cavalo também é briguento como a dona e não se da bem com outros cavalos. Não pude evitar um sorriso ao olhar para ele antes de deixá-lo. Rius é um cavalo malhado de marrom e branco, mais comum impossível. Porém ele ostenta um ar majestoso, que o faz parecer o Rei dos animais mesmo entre os mais belos cavalos da corte.
Joguei a minha trouxa nas costas e fui até a rua principal onde o cortejo do festival deveria acontecer. Tentando ajeitar meus rebeldes cabelos, percebi que me esqueci de prendê-los antes da corrida a cavalo. Agora eles estavam emaranhados e cheios de nós. Zarmey, xinguei a mim mesma em pensamento ao me ver obrigada a prendê-los de qualquer jeito, quando tudo que queria era ficar bonita na presença de Lorde Kadrahan.
Ao chegar ao local do cortejo, não encontrei a multidão que normalmente já teria se aglomerado na rua. Agarrei a gola da camisa do primeiro que passou na minha frente e perguntei:
- O que aconteceu? Por que ainda não há ninguém aqui?
Não conhecia o rapaz, mas ele certamente sabia quem eu era, dada a sua expressão de pânico ao me ver, então se apressou em responder.
- Você não soube? O Festival da Lua Verde foi cancelado!
- Cancelado?–eu não fiz Rius praticamente voar porque estava ansiosa por minhas aulas. – Por quê? Eles nunca cancelaram o Festival da Lua Verde antes! O festival é uma tradição e tradições foram feitas para serem seguidas! –raiva e frustração cresciam em mim. Sem festival eu perderia a minha única chance de ver Lorde Kadrahan.
- Há alguns dias o povoado que a Princesa Myris visitava foi invadido. –informou o rapaz com pesar. – A Princesa foi sequestrada por Cernis!
Soltei a gola do rapaz, que saiu correndo para longe de meu alcance. Toda a minha raiva e frustração desapareceram em um segundo. Meu sangue gelou em minhas veias. Cernis. Uma raça de criaturas extremante fortes e sanguinárias. Todos, até mesmo eu, concordamos que são criaturas abomináveis, perigosas e letais. Infelizmente eles tem o dom único de se transformarem em unicórnios atraindo suas vítimas para uma armadilha. É praticamente impossível diferencia um unicórnio verdadeiro de um Cerni. O pior, entretanto, é que apesar da aparência medonha, são seres inteligentes e calculistas. A única coisa que impede de se tornarem uma ameaça maior a nossa civilização, é que eles estão sempre competindo entre si, matando uns aos outros pelo poder.
Khrratz ! Deixei o rapaz ir antes de obter mais informações! Lorde Kadrahan devia estar arrasado! Será que haveria alguma chance de a Princesa ainda estar viva? Senti tristeza por ela. Ninguém merecia morrer nas mãos de Cernis, muito menos alguém tão bondosa quanto a Princesa. Seria cruel demais. Lorde Kadrahan sem dúvidas estaria sofrendo muito. Todos sabem que ele ama a Princesa mais do que tudo.
Sem alternativa, me dirigi ao Centro de Aprendizagem. Passei rapidamente em meu quarto para deixar a minha trouxa e pegar meus livros inúteis, então segui para as salas de estudo.
Ainda estava no pátio, quando tive meu caminho barrado pelo idiota ingrato.
- Pensei que teria a alegria de não ver você por mais um período de estudos, bruxa!
Com o meu melhor sorriso, respondi:
- Imagine, gastei todo o meu intervalo dos estudos elaborando uma nova poção para transformar você em um nojento Volun. –o sorriso arrogante que ele ostentava, murchou um pouco. – Seria um desperdício de meus talentos não voltar, Vanshey.
Uma ligeira irritação surgiu em seus olhos.
- Você sabia que eu tenho nome? –perguntou ele com voz alterada. – Vanshey não é nem mesmo o meu sobrenome. É apenas o título de um ducado.
Mesmo contra minha vontade, sorri genuinamente. Nem mesmo quando eu o deixava com um olho roxo ou o ameaçava com minhas supostas bruxarias, o irritava mais do que chamá-lo de Vanshey. Por um instante me permiti observá-lo. Vanshey não é muito mais alto que eu, é um tanto magro, porém tem alguns músculos em desenvolvimento, seu cabelo castanho combina perfeitamente com seus olhos cor de âmbar. Até o acharia bonito, se não fosse tão ingrato e irritante.
- Oras, ouvir isso de alguém que só me chama de bruxa, é um tanto irônico, Vanshey.
Ele chegou a abrir a boca para dizer alguma coisa, mas foi interrompido por uma terceira voz:
- Bruxa, você teve mesmo a ousadia de voltar? –era o filho do Marquês de Grandy. – Pensei que você ao menos teria a decência de não voltar a estudar aqui por iniciativa própria.
- Cale a boca, estou de péssimo humor hoje para tolerar suas provocações, Alárak!
Realmente, ser privada da minha única chance de ver Lorde Kadrahan, me deixou sem paciência.
- Ele você chama pelo nome? –se intrometeu Vanshey com tom de acusação.
- O que foi, Vanshey? –para desagrado do futuro duque, o apelido que dei a ele tinha se espalhado como gripe. – Por acaso está com ciúmes?
O rosto de Vanshey ficou vermelho de raiva. Provavelmente ele nunca ouviu uma ofensa como aquela antes.
- Cale a boca, Alárak! –disse enfurecido.
- Pensei que era apenas o Duque, mas obviamente pai e filho estão dividindo a mesma amante na cama! Sua mãe deve estar se revirando no tú...
Dois socos certeiros atingiram a cara de Alárak ao mesmo tempo. Pela primeira vez, Vanshey e eu concordamos em alguma coisa.
Foi então que o caos começou. Os amigos de Alárak vieram em sua defesa, assim como os amigos de Vanshey também entraram na briga. Eram socos e chutes por todos os lados. Não me importava que tecnicamente estivesse brigando ao lado de Vanshey e seus amigos, tudo o que eu queria era quebrar o nariz de Alárak.
Mas de repente senti alguém agarrando a minha cintura por trás me tirando do meio da briga. Em um ato de puro reflexo, dei uma cotovelada com toda a minha força no rosto do meu suposto agressor. Ele me soltou no mesmo instante, e para o meu completo pavor, quem eu vi diante de mim com os lábios sangrando devido ao meu golpe, era ninguém menos que o Príncipe Nars. Imediatamente me joguei de joelhos diante dele e a confusão no pátio cessou instantaneamente.
- Alteza, eu imploro que me perdoe! Não foi minha intenção lhe agredir! Ou melhor, foi intencional, mas eu não vi que era o senhor! –as palavras jorravam de minha boca antes que eu pudesse avaliar as possíveis consequências que elas trariam. – Nem mesmo eu seria tão burra ao ponto de agredir um príncipe! Por favor, suplico o seu perdão, Alteza!
O Príncipe massageava a face direita ao mesmo tempo em que limpava o sangue que escorria de seus lábios. Sua expressão era séria e estava a ponto de dizer algo, mas foi interrompido por Vanshey:
- Alteza, eu peço que a perdoe! – inesperadamente, Vanshey também se postou de joelhos. – Aédris estava apenas se defendendo! Tenho certeza que ela não teria agredido Vossa Alteza se soubesse que era o senhor!
Então, a expressão séria do Príncipe se transformou em um sorriso quando ele disse:
- Não se preocupe, Larcan. Sei que ela estava apenas se defendo. – ainda sorrindo como se o que tinha acontecido tivesse sido apenas a coisa mais engraçada do mundo, completou: - E muito bem, devo acrescentar.
Larcan? Ele estava falando de Vanshey? E por todas as luas, por que Vanshey estava intercedendo a meu favor? E desde quando ele sabia o meu nome?
- Além do mais, eu nunca puniria alguém de quem preciso desesperadamente de ajuda. –disse o Príncipe enquanto se inclinava e delicadamente me ajudava a ficar de pé.
Vanshey também se levantou tão intrigado quanto eu diante das palavras do príncipe.
- Lady Aédris, sou eu quem deve lhe implorar por algo. –seu olhar era intenso e carregado de sofrimento.
Lady? Eu? Me implorar por algo? Será que eu tinha golpeado a cabeça do Príncipe com muita força?
- Alteza, me perdoe mais uma vez...
- Lady Aédris, eu suplico, ajude-me a salvar a vida de minha irmã!

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olhos brilhando Feliz Feliz 4 Malvado 4

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Mays Santos


Banzai'Star
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In love 2 Pervertido 2 olhos brilhando

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começando a ler primeiro capitulo estou gostando

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barbra_manz

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Banzai'Star
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Muito bom!!!

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katherine nana

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Ohh que gracinha, o jeito que você escreve e tão simples, que e como se a gente estivesse na historia, amei sua fanfic... parabens olhos brilhando

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katarab


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feliz 2

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Maria Livia

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Li o primeiro capitulo, gostei acho que vou acompanhar

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